quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Bánãna ou Bãnãna?

Isso de ser nordestina e morar no Sudeste tem umas coisas engraçadas. De início, achei que pudesse ser discriminada, especialmente pelo sotaque, porque é sempre a primeira coisa a ser notada. Redondamente enganada estava eu, porque fui pra lá de bem recebida e os mineiros acham "moh bonitin" especialmente quando mando "um cheiro" pra alguém.

Mas o lance é o seguinte: certa vez estava em um bar e o namorado de uma das meninas presentes era baiano. Ele ficou feliz e meio ao me ouvir pedir uma "cãneta" ao garçom. Para quem não sabe, em algumas regiões do Brasil, especialmente em Minas Gerais, as consoantes nasais não interferem, necessariamente, nas vogais anteriores a elas. Como assim? Vamos lá:

Antes de mais nada, é importante que as pessoas estejam atentas àquilo que nos ensinaram na escola: vogal não é letra; consoante não é letra. Letras são as representações gráficas e, sem falar muito bonito (antes que fonologistas/foneticistas me condenem!), vogais e consoantes são os sons. Ok?

A palavra caneta apresenta uma consoante nasal, /n/. Para nós, nordestinos, quando, depois de uma vogal,  na sílaba seguinte, há uma consoante nasal, essa consoante interfere na vogal e esta também se torna nasal. Por isso, falamos [kã.'nê.ta] e [bã.'nã.na]. *A representação fonética não está correta, mas a ideia é que todos compreendam.
Para os mineiros, porém, as consoantes nasais não interferem indistintamente. Aí, certo dia, meu primo me indaga, revoltado:

- O certo é BÁNÃNA ou BÃNÃNA? Lá na Agência, a galera tá tirando onda comigo e eu tô tentando provar a eles que o nosso jeito de falar é muito mais coerente. A gente nasaliza logo tudo e eles só nasalizam de vez em quando. Tudo bizarro! Falam "bánãna", mas por que não falam "cáma"?

Aí eu pedi paciência a ele e pedi para explicar.

O que acontece é assim: para os mineiros, a consoante nasal que vem no início de uma sílaba só interferirá na vogal anterior se, e somente se, a vogal estiver na sílaba tônica. ;) Captou? Não? É assim:

Em banana, temos duas sílabas "na". Por que, para os mineiros, somente o "a" do meio é nasalizado? Somente porque é o "na" do meio é a sílaba tônica! Então a consoante /n/ da última sílaba consegue interferir na nasalização do segundo "a". Aí, no caso da palavra cama, o primeiro "a" é nasalizado porque está na sílaba tônica, logo, a nasal /m/ interfere nela e ficamos todos iguais: ['kã.ma].

Aí, pra resumir, se em camelo a sílaba tônica é "me" e, depois dela, não há consoante nasal, não faz sentido, pro linguajar mineiro, nasalizá-lo e, consequentemente, a vogal /a/ também não será nasal, por não estar na sílaba tônica.

No fim das contas, não tem certo ou errado, nem adequado ou inadequado. É só variação fonética e ninguém é mais ou menos coerente que ninguém, como queria provar o meu primo.

4 comentários:

Tai disse...

Eu acho que essas diferenças fantásticas, na verdade. Ainda mais quando bem explicado, assim.
E curto demais sotaques. Mesmo. <3

Ana Luísa disse...

Você é uma fofa, Tai! :)
Quando a gente se reencontrar, meu sotaque vai estar daquele jeitinho que você tanto adora!
:*

Tiago disse...

Eles estão errados e nós estamos certos. Facto. ;D

Pedro Melcop disse...
Este comentário foi removido pelo autor.

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