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terça-feira, 9 de agosto de 2011

Cadê o acento que estava aqui?

Algumas coisas me irritaram bastante nesse Novo Acordo Ortográfico. A queda do trema foi um choque tremendo, mas logo me acostumei à ideia. E esta pobre coitada, a ideia, também me rendeu algum sofrimento, porque o acento agudo que antes existia sobre ela me lembrava sempre aquela imagem da lâmpada que acende quando se tem uma boa ideia. E, agora, cadê!? :(

Mas o que me irrita mesmo é a queda do acento diferencial de "para", que distinguia o verbo da preposição. Em vários contextos, admito, ele é desnecessário, mas e quando a sentença é como esta manchete do portal da Globo.com? "Homem armado para protesto em Salvador". 


A partir dessa construção, é impossível saber se ele pôs fim ao protesto ou se ele se armou com a finalidade de ir ao protesto. Lendo a matéria, descobrimos que ele assustou os manifestantes ao saltar armado do carro. Intimidados, os manifestantes pararam o protesto e abriram espaço para que o homem armado passasse.

Talvez esses contextos confusos sejam minoria, talvez a manchete do portal pudesse ter sido melhor redigida, mas talvez o acento pudesse mesmo ter permanecido. :(

Para quem não estava sabendo:


Antes de o Novo Acordo Ortográfico ser assinado, o verbo parar recebia um acento diferencial no primeiro "a", quando flexionado na 3ª pessoa do singular (ele/ela/você) do presente do indicativo, ou na 2ª pessoa do singular (tu) no modo imperativo. Agora o acento agudo não existe mais para distinguir o verbo e a preposição e confusões como essa da manchete acabaram por se tornar mais fáceis de ocorrer.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Garçom, uma meia muçarela e meia calabresa, por favor!


O Linguageiro ficou mudo porque julho é mês de férias e, se há férias, é tempo de voar para o aconchego da mãe e para os braços do namorado e dos amigos, né? :)

Hoje é segunda-feira e, como quase toda segunda é ingrata por natureza, a postagem de hoje é para chocar uma grande parcela da população brasileira, tanto no que diz respeito às dietas que começam hoje (Oi!?) quanto no que diz respeito ao que muitos andam pedindo por aí nas pizzarias.

Pois é, meu bem, também fiquei chocada quando vi, num livro didático de matemática, a grafia de muçarela. Imediatamente, corri para pedir auxílio a um dicionário e estava lá, grafada com "cê cedilha", a palavra que, para mim, é muito mais saborosa com "SS". :(

Segundo o Dicionário Eletrônico Houaiss, muçarela é o mesmo que mozarela. A grafia mais comum  mussarela é justificável pela origem da palavra, no italiano mozzarella, mas é pouco aceita pelos dicionários da língua portuguesa.

No Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras (VOLP-ABL), as formas registradas são mozarela (aportuguesamento mais próximo da palavra original), muçarela e muzarela. Por enquanto, nada da tão famosa mussarela.
:(
E, aproveitando a deixa, calabresa é grafada com "S", ok? E, também, por um acaso, muçarela é lá sabor de pizza?! :P

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O que vem de baixo não me atinge

Depois de ter postado sobre as diferenças entre debaixo / de baixo / embaixo, lembrei essa expressão tão corriqueira no repertório das pessoas: O que vem de baixo não me atinge. Como a ideia do Linguageiro é abordar coisas do dia a dia (agora, sem hífen), achei que seria legal explicar por que, nessa expressão, o correto é "de baixo".

Para quem prestou atenção à postagem anterior, não deve ser difícil entender, mas a ideia é simples: o verbo "vir" indica a ideia de movimento. Logo, há o movimento de um ponto a outro e, no caso, de baixo para cima. :)

No entanto, pensei se haveria alguma outra possibilidade e, de fato, há! :) Mas atenção! Dizer O que vem debaixo não me atinge implica dizer o local onde vem esse tal "objeto que atinge". Não há, aqui, ideia de movimento, mas de estaticidade. Não é o lugar de onde vem, mas, simplesmente, onde vem.

Ok?! :)

Pensando nisso, lembrei-me de quando eu era pequena: sempre que alguém dizia essa frase, a resposta era automática: "Vá sentar em cima de um formigueiro pra ver!" :)
Coisas de criança! :P

terça-feira, 28 de junho de 2011

De baixo, vai pra cima

Não, ele não morreu! :)
Tenho andado "distraída" com os afazeres domésticos e com os acadêmicos, aí não tive tempo (nem muita paciência) para retomar as ideias daqui. Mil perdões aos leitores assíduos que continuam a visitar a página e a pedir novas postagens.

Mas hoje a minha irmã citou o Linguageiro em um tutorial de maquiagem na página dela lá no Facebook, e isso me fez pensar em por que não escrever agora mesmo, né!? ;)

O ponto que ela comentou foi sobre a palavra "embaixo". Essa palavra me lembra o trio que costuma confundir uma galera relativamente grande na hora de escrever: embaixo / debaixo / de baixo. As três indicam a ideia de lugar, mas as duas primeiras são sinônimas e transmitem uma ideia estática; a terceira, uma ideia de movimento. Como assim?

Embaixo e debaixo indicam que uma coisa está sob outra, isto é, uma está em posição inferior à outra:

O gato está embaixo do guarda-chuva.
O gato está debaixo do guarda-chuva.

A expressão de baixo, apesar de ser muito similar às outras, indica uma ideia de movimento:

Os bons velhinhos vão de baixo para cima nas escadas rolantes.

Essa expressão de baixo indica o movimento de um lugar para outro. Logo, a pessoa se movimenta do lugar inferior para o superior (de baixo para cima).

Aproveito também a oportunidade para lhes dizer que em cima é uma expressão que deve ser grafada separadamente, galera!! EM + CIMA, separadamente! :) Digo isso porque vi, inúmeras vezes, as pessoas grafarem-na da seguinte forma: encima, como se encima fosse o antônimo de embaixo.

Então, para finalizar:

O gato está embaixo / debaixo da mesa.

Agora,
O gato está em cima da mesa.

Por fim,
O gato, em cima da cama, pula de baixo para cima.

Ajudou!? ;)

Observação:
Não tenho predileção pelos gatos, apesar de achá-los fofinhos muitas vezes. As fotos foram escolhidas quase aleatoriamente, mas o critério para a escolha dos gatos foi algo, de fato, sem critério além da demonstração das expressões.

domingo, 5 de junho de 2011

Antes de P e B, só se escreve M

Isso todo mundo aprende ainda pequeno, quando está sendo alfabetizado, mas pouca gente sabe por quê. A explicação é bem simples: p, b e m são consoantes a que chamamos bilabiais, isto é, são consoantes que, para serem proferidas, os lábios precisam-se tocar.

Logo no primeiro período da minha graduação, cursei uma disciplina chamada Linguística I - Fonética e Fonologia. Durante algumas aulas, os alunos ficavam parecendo um bando de loucos articulando consoantes "no ar". :) A questão é que, para a maioria das pessoas, consoantes são bê, cê, dê, efe, gê, etc., ditas dessa forma. O que acontece, na verdade, é que, na faculdade, eu precisava articular apenas as consoantes. Para os leigos, é como se eu "fingisse" fazer o som que faz a consoante, sabe? Finjo que vou dizer "bê" e, antes de pronunciar o "ê", eu me calo. :)

Pra que serve isso?

Quando articulamos as consoantes dessa forma, percebemos suas semelhanças e diferenças quanto à articulação. As semelhanças entre p, b e m, de uma maneira didática, podem ser explícitas da seguinte forma:


Bilabial
Nasal
Vibração das cordas vocais
[p]
+
-
-
[b]
+
-
+
[m]
+
+
+

Mas por que isso interfere na grafia das palavras?
Quem fala inglês entenderá mais facilmente: tomemos como exemplo a palavra comfort (conforto). A pronúncia correta dessa palavra requer a pronúncia do [m], correto? Esse primeiro "o", ao contrário do que a maioria pensa, não tem som de "o", muito  menos de "õ", como supõem muitos falantes do português. Esse primeiro "o" tem um som que fica entre um "ó" (aberto) e um "a" mais fechado, como vocês podem ouvir aqui. Se prestarem bastante atenção a essa pronúncia do Google Tradutor, perceberão que o [m] é, de fato, pronunciado e não nasaliza a vogal anterior a ele.

Assim sendo, na língua inglesa, M pode preceder consoantes que não sejam bilabiais porque será pronunciado como M, não como consoante que apenas nasaliza a vogal anterior. (O mesmo serve para a consoante [n], que, em muitas palavras da língua inglesa, também deve ser articulada e não servirá, na grafia das palavras, como um indicador de nasalidade da vogal.)

Em português, ao contrário, uma consoante [m] (ou [n]) após uma vogal, na mesma sílaba, é sempre para indicar a nasalidade dessa vogal. Em termos de grafia, é o que chamamos de dígrafo, isto é, dois grafemas (letras) para representar um único fonema (som): campo, som, compromisso, canto, menta, conto, etc. O que a ortografia da língua portuguesa tenta, então, é respeitar as regras fonológicas que regem a própria língua, porque essas regras primam pelo menor esforço dos falantes no proferimento dos sons. :)

Viram que nem tudo é tão arbitrário quanto a gente pensa? ;)

Observação:
1 - Quem se interessar mais pelo assunto, pode conferir a página do Centro de Estudos da Fala, Acústica, Linguagem e Música, da UFMG, que traz, de maneira bem didática, uma análise dos sons do português. Lá, é possível ouvir como cada um dos sons da nossa língua são articulados pelo nosso aparelho fonador. Vale a pena! :) 


sexta-feira, 3 de junho de 2011

Que viajem, então! :)


Como informado na postagem anterior, o assunto de hoje vai ser essa viagem que o povo tem de confundir viagem e viajem. :) E, antes que alguém muito sabido se manifeste: ambas existem, ok?

A diferença entre elas é bem simples: a primeira é um substantivo; a segunda, um verbo. Simples assim! :)

Quando dizemos "Vou fazer uma viagem" ou "Que viagem é essa sua?" (pra dizer "que 'doideira' é essa sua?"), devemos empregar g, porque, nos dois casos, a palavra em questão é um substantivo e substantivos terminados em "agem", como camuflagem, passagem, mensagem, etc., são grafados com G, com exceção de pajem. ;)

Mas, se existe viagem com G e viajem com J, quando é, finalmente, que eu escrevo com J?
Ora, meus queridos, se, com J, é verbo, vai usar J quando for verbo, né!? (Dhãããã!) E só há, para isso, duas ocorrências (que, talvez, possamos considerar como três):
  • VIAJEM (verbo)
    • tempo: presente
    • modo: subjuntivo
    • pessoa: 3ª do plural (eles/elas/vocês)
      • A mãe quer que eles/elas viajem.
      • O agente da empresa de turismo fará de tudo para que vocês viajem.
*Falei que talvez pudéssemos considerar 3 opções porque, nesse exemplo do presente do subjuntivo, observamos a possibilidade de o verbo estar se referindo a "eles", mas também a "vocês". Alerto, pois, que tanto "você" quanto "vocês", apesar de se referirem à 2ª pessoa do discurso (a pessoa com quem se fala), são pronomes de tratamento e, por isso, pronomes de terceira pessoa. Assim sendo, tudo que a eles se referir deverá concordar com a terceira pessoa, do singular ou do plural, a depender do você/vocês. Ok?
  • VIAJEM (verbo)
    • tempo: ------
    • modo: imperativo
    • pessoa: 3ª do plural
      • Não viajarei. Viajem vocês!
      • Viajem agora, antes que o bicho-papão venha buscá-los! (Vocês)
*Aqui, o verbo viajar está no modo imperativo, isto é, aquele que expressa um pedido, conselho ou uma ordem. Alerto para um detalhe: no modo imperativo, as 3ªs pessoas (ele/eles; ela/elas) são sempre você/vocês. Por quê? Porque só podemos dirigir a nossa ordem, nosso conselho ou pedido à pessoa com quem falamos e essa pessoa não pode ser, jamais, "ele(s)" ou "ela(s)", porque estas são as pessoas de quem costumamos falar (o assunto da conversa).

É só voltar às ideias da postagem anterior e lembrar quem são as pessoas do discurso, ok? ;)

Se acharem tudo isso muita viagem e, principalmente, pouco necessário para a vida prática, que viajem, então! ;)

Observação:
Por que, tanto no título quanto no final da postagem, eu usei "viajem", com J? :)
É porque a ideia é que seja mesmo um verbo no modo imperativo, como quem diz: "Ah, quer continuar viajando na maionese? Viaje, então!" ;)

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Glossário

Hoje estou sem muito tempo para escrever sobre as coisas, mas, para não ficar sem postagem, resolvi fazer um pequeno glossário com algumas palavras que vejo e ouço por aí, ditas e grafadas de maneira equivocada. Em vermelho, colocarei a grafia e/ou "pronúncia" equivocada; em verde, a dicionarizada. :)

DEGLADIAR - DIGLADIAR
EMBREAGAR - EMBRIAGAR (consequentemente: embreagado - embriagado) 
ESCULTAR - ESCUTAR
ANCIOSO - ANSIOSO
IORGUTE - IOGURTE
EXCESSÃO - EXCEÇÃO
CABELEREIRO - CABELEIREIRO (porque deriva de CABELEIRA, não de cabelo)
QUIZ - QUIS (os verbos querer e pôr, assim como seus derivados, serão sempre grafados com s, jamais com "z". Por isso, corretas estão as formas quiser, quis, puser, pus, antepus, sobrepuser, etc. / Quiz, com Z, é o questionário e não é uma palavra da língua portuguesa.)
CONHECIDÊNCIA - COINCIDÊNCIA (porque não tem a ver com "conhecer", mas com co + incidir)

Que outras palavras vocês destacariam? :)

Observação: galera, vocês podem, por favor, responder a enquete à esquerda? Só para eu ter um feedback. ;)

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Ao invés de x Em vez de

Priscila, leitora assídua do Linguageiro, deixou um comentário na postagem de anteontem e, nesse comentário, utilizou a expressão "em vez de". Um amigo leu o comentário e, lá mesmo na postagem, questionou se o correto não seria utilizar "ao invés de". Nos comentários, deixei explicado, mas resolvi criar este post para tentar esclarecer essa dúvida que assombra a mente de várias pessoas. :)

Vamos lá.

Ao invés de x Em vez de

Já começarei discordando de mim mesma ao colocar uma expressão versus a outra, porque elas não são de todo opostas. No entanto, há, sim, uma pequena diferença entre elas:

  • Ao invés de: ao contrário de
    • Apesar de ser utilizada em abundância na locução "ao invés de", a palavra "invés" existe independente e significa contrário, oposto, avesso. Por isso, a locução é idêntica semanticamente à expressão "ao contrário de".
    • Deve ser utilizada apenas quando se quer tratar de duas "coisas" realmente opostas, contrárias.
  • Em vez de: no lugar de, na vez de
    • Essa expressão pode ser utilizada tanto para contrapor "coisas" opostas quanto para contrapor "coisas" que, por natureza, não apresentam esse caráter opositivo.
Exemplos:

(1a) Em dias de sol forte, ao invés de usar roupas pretas, utilize roupas brancas.
(1b) Em dias de sol forte, em vez de usar roupas pretas, utilize roupas brancas.

1 - Aqui, tanto faz usar uma ou outra expressão, porque PRETO e BRANCO são duas ideias realmente opostas.

(2a) Em dias de sol forte, ao invés de usar amarelo, utilize preto.
(2b) Em dias de sol forte, em vez de usar amarelo, utilize preto.

2 - Amarelo e preto são, obviamente, cores diferentes, mas não podemos classificá-las como opostas. Preto é oposto de branco porque, a rigor, "branco é a presença de todas as cores" e "preto é a ausência de todas as cores".

No comentário de Priscila, ela construiu: "em vez de domicílio, usássemos casa (...)". Aqui, podemos concluir, então: se domicílio = casa, não faz sentido utilizar "ao invés de", uma vez que as palavras são sinônimas. :)

Penso, pois, que, surgindo a dúvida, é melhor optar pela expressão em vez de, porque ela pode ser usada mais amplamente. :)

Mas fiquem ligados para a grafia da palavra invés, pois muita gente por aí costuma grafá-la das seguintes formas: invez ou mesmo invéz. ;)

quarta-feira, 25 de maio de 2011

oi gata mim add ai flw

[O Blogger, só Deus sabe por que, havia tirado esta postagem do ar. Só fiz publicá-la novamente, mas há nada de novo.]

Tem coisas que só mesmo o Orkut proporciona a você. ;)

Levanta a mão quem aí já recebeu um pedido de adição que vinha com mensagens tipo 'oi gata mim add ai flw?!" o/


O melhor é que elas sempre vinham de cidadãos cuja foto era fazendo um hang loose ou cruzando os braços, fazendo cara de mal encarado e, se possível, sempre com aqueles óculos escuros HB. (Esse estereótipo soa um pouco preconceituoso, mas é um padrão mesmo.) O e-mail da pessoa, claro, era sempre algo do tipo "maninhow_tjs@hotmail.com" ou "manowbroder_sk8@hotmail.com".

Esses míni-recados são um prato cheio para qualquer aula de português, ignorarei a primeira regra básica da boa escrita, que é o uso de letra maiúscula no início das frases, porque costumo desrespeitá-la bastante nas redes sociais (abafa!).

Comecemos, então, por uma regrinha de pontuação fundamental: "gata" é o vocativo, ou seja, a palavra que o ManowBroder usou para se dirigir a mim. Quando, nas nossas frases, empregamos um vocativo, ele deve vir entre vírgulas. ManowBroder deveria ter dito, então, "Oi, gata". Depois do "gata", ele poderia ter inserido outra vírgula, ou colocado um ponto, ou uma exclamação (!), mas era mesmo necessário que, após a palavra, existisse alguma pontuação.
*Não estou certa, mas talvez as interjeições devam-se ligar aos vocativos sem a vírgula, porque vejo, com  relativa frequência, pessoas que eu respeito muito em termos de escrita escrevendo dessa forma. Mas nunca li em canto algum e, por isso, vou deixar a regra do vocativo prevalecer, ok?

Na sequência, um erro clássico e crasso das redes: "mim" no lugar de "me". Tem até os que inovam e dizem "min", mas esses são uma minoria egoísta e exclusivista. E qual é o problema aí? O_o É que mim é o que chamamos de pronome oblíquo tônico. Quando pequenos, decoramos que existem os pronomes pessoais, né? Depois a professora ensina que eles podem ser do caso reto ou do caso oblíquo. Aí a pirralhada toda recita, em uníssono: "eu, tu, ele/ela, nós, vós, eles/elas"; "me, mim, comigo, te, ti, contigo, o, a, lhe, se, si, consigo, nos, conosco, vos, convosco, os, as, lhes, se, si, consigo" - uns economizam os duplicados, o que é bastante compreensível. Mas poucas professoras ensinam a diferença entre os oblíquos, subdivididos em átonos e tônicos. :( Já falei aqui no blog um pouco sobre tonicidade, quando falei dos porquês. O lance é bem simples: os tônicos são aqueles que, na pronúncia, são tônicos! :) Redundante assim! É só lembrar da sílaba tônica. ;) E o que acontece? Os pronomes oblíquos tônicos são sempre regidos por preposição, ou seja, é necessário que haja uma preposição antes deles. Por isso, dizemos "este presente é para mim", "a menina trouxe a água para si", "gosto muito de ti", etc. Talvez alguém pergunte "e esses comigo, contigo, consigo...?". Lááááááááá no latim, a gente dizia "cum te", "cum me", etc. Ficava bem feio e, foneticamente falando, era mais difícil de articular. As evoluções aconteceram e acabamos alterando a ordem preposição + pronome, ficando, pois, "tecum", "mecum". Em português, tenho a impressão de que a estrutura era "migo", "tigo" e "sigo" mesmo, daí, como esses pronomes eram sempre regidos pela preposição "com", o uso acabou por incorporar a preposição às próprias palavras, como no latim. Dessa forma, conseguimos "comigo", "contigo", etc. Então, gente, a preposição já está incluída aí nesses pronomes e, por isso, não há necessidade de ooooutra preposição antes deles. ;)

Até agora, ManowBroder deveria ter escrito: "Oi, gata, me..", blz?

O verbo to add é da língua inglesa e significa adicionar. Como a maioria das redes sociais é criada em inglês, muitas palavras inglesas acabam sendo incorporadas ao nosso linguajar e, muitas vezes por preguiça, acabamos utilizando-as a torto e a direito. Vamos perdoar essa, tá?

Depois tem aquele "aí", que os ManowBroders sempre escrevem sem acento. :( Aí, meu povo, fica só um ai, desses que a gente diz quando alguém dá um beliscão na gente, sabe!? Em português, tanto a vogal i quanto a vogal u serão acentuadas graficacmente se forem a segunda vogal tônica de um hiato, se estiverem sozinhas ou seguidas de S e não seguidas por NH: Lu-í-sa / ju-í-za / pa-ís / Lu-ís / a-ça-í / ba-ú / Cam-bo-ri-ú, etc. (Quando, depois do "i" ou do "u", houver um "nh", eles não serão acentuados, porque a nasalidade do "n" é transferida para as vogais anteriores e, assim, elas acabam ganhando a sua tonicidade: ra-i-nha, ba-i-nha).
    • Um detalhe para o qual quero chamar atenção é que, após o novo Acordo Ortográfico, não iremos mais acentuar graficamente nem o "i", nem o "u" tônicos, nas palavras paroxítonas, quando eles vierem depois de um ditongo decrescente: baiúca - baiuca, bocaiúva - bocaiuva, feiúra - feiura.
Por fim, meu aspirante a amigo no Orkut deveria ter posto uma vírgula depois do "add", porque esse "flw" (falou) é uma expressão utilizada para checar o canal, isto é, se o interlocutor captou a mensagem. Lááááá naquelas aulas de figuras e funções da linguagem, ensinam à gente que isso é a função fática. É o que eu faço muito aqui, usando "né?", "ok?", "saca?", etc. ;)

É isso, galera! :) E essa postagem me deu ânimo para falar de um tal "teste do msn" que eu costumo(mava) fazer, mas isso são cenas de um próximo capítulo. ;)


Observações da postagem:
1 - Queridos amigos do Direito, vocês vivem com aquele livrinho (inho?) Vade mecum embaixo do braço, né? Já se perguntaram o que significa "vade mecum"? É "vai comigo", em latim. Por isso que vocês vivem com ele para cima e para baixo, ó! ;)
2 - TJS e SK8, lá no começo da postagem, significam Torcida Jovem do Sport e Skate, para quem não sabe.

terça-feira, 24 de maio de 2011

É pizza? Entregamos em domicílio

Há várias postagens em rascunho esperando serem concluídas para virem ao ar por aqui. Mas, passeando pelos perfis dos amigos no Facebook, encontrei esta placa que, inevitavelmente, me arrancou um sorriso discreto.


A maioria de vocês já deve ter ouvido falar do livro O Brasil das Placas, né? Se não ouviu ainda, é um livro em que constam  várias placas de caracteres para lá de diversos, espalhadas pelo Brasil. Não quero, porém, falar do livro ou das placas, mas é que essa daí me lembrou um assunto bem discutido nas aulas de português, que é a tal da expressão "entregamos a domicílio" e todas as suas variantes.

Para começarmos a conversa, resolvi fazer uma busca no Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa, que me disse:

domicílio
substantivo masculino 
1 residência habitual de uma pessoa; casa, habitação
2 Derivação: por extensão de sentido.
lugar (cidade, distrito, região etc.) onde se situa essa habitação
3 Rubrica: termo jurídico.
local onde se considera estabelecida uma pessoa para os efeitos legais, onde se encontra para cumprir certos atos ou onde centraliza seus negócios, atividades, não forçosamente o lugar onde dorme
4 Rubrica: termo jurídico.
lugar onde funcionam as diretorias e administrações de pessoas jurídicas
5 Rubrica: astrologia.
casa zodiacal em que o planeta correspondente encontra-se situado
Ex.: o sol que rege o signo de leão encontra-se em seu domicílio.

A primeira definição já nos serviria, mas não vi problemas em deixar todas as acepções oferecidas pelo Houaiss eletrônico.

Para alguns, talvez não tenha ficado claro o equívoco da placa, mas é o lance é: casa e domicílio são sinônimos. Logo, um pintor só poderá pintar a sua casa, de fato, em domicílio (no seu, não no dele).

Isso tudo, então, me fez lembrar aquela construção "Entregar a domicílio", que às vezes varia em "Entregar à domicílio", etc. Vamos aos casos?

  • Entregar a domicílio
    • Se domicílio = casa, significa que a empresa entregará a encomenda à sua casa. Para ser mais precisa, não é você ou qualquer outra pessoa quem receberá a encomenda, mas a sua casa. Isso mesmo, a sua casa!, essa estrutura de tijolo e cimento que protege você do sol e do frio, entre outras coisitas mais.
  • Entregar à domicílio
    • Aqui, persiste a ideia do tópico anterior, mas podemos acrescentar o equívoco no emprego do acento grave, indicador da crase. Domicílio é um substantivo masculino e, por isso, não poderia ocorrer crase diante dele, neste caso, porque ele não aceita o artigo feminino "a". Se a estrutura não violasse o raciocínio do tópico anterior, poderíamos dizer "entregar ao domicílio", mas, como viola...
E como diabos ficaria corretinho, então? Bora pensar: o motoqueiro entregará uma pizza a quem? A uma pessoa que esteja NO domicílio. A pessoa estará NO domicílio porque "o domicílio" é um local físico e, normalmente, estático. Assim sendo, o melhor é dizer que se faz entrega em domicílio, porque, chegando lá, quem puder receber receberá. :)

Entregamos pizza. > A quem? > Aos clientes. > Onde? > Nos domicílios.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Não prefiro mais

Nas redes sociais de que participo, tenho sempre perguntado aos amigos e conhecidos sobre palavras e expressões que lhes saltam aos olhos (ou aos ouvidos) nas conversas do dia a dia. Um dos meus amigos, por exemplo, me disse que não sabia haver tantas pessoas no mundo que escrevessem escultar. A minha ideia com este blog não é bem explicar regras e regras, sabe? Eu queria que fosse uma conversa informal sobre assuntos bem corriqueiros, como esses que tenho abordado.

Aí sim! Escutar, gente, não é grafada com "L". No latim, o verbo era auscultare, mas, em português, ele acabou vindo um pouquinho diferente: escutar. No entanto, também temos o verbo auscultar, em português, que também significa "ouvir", mas é um pouco mais específico e não costuma ser aplicado a qualquer audição.

Mas aí tem umas outras coisas que intrigam bastante, principalmente considerando o que falei sobre meu pai ter-me ensinado a pensar. Uma amiga me falou agora no Msn sobre o verbo preferir, que confunde muita gente quanto à regência. Sobre ele, não há muito o que filosofar: o verbo preferir é o tipo de verbo a que chamamos de transitivo direto e indireto, ou seja, aquele que precisa de dois complementos (objetos) e um deles precisa-se unir ao verbo com o auxílio de uma preposição. No caso de preferir, a preposição é a preposição "a" e só ela: Prefiro chocolate branco a chocolate ao leite / Prefiro futebol a vôlei / Preferimos pizza a crepe, etc.

É uma questão bem de decorar, sabe?

Maaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaas, como minha ideia aqui não é ensinar ninguém a decorar, tem outra coisa que me parece bem mais interessante sobre o verbo preferir! Ahá! :)

Tem uma galeeeeeera que tem uma mania muito feia de dizer que "prefere mais alguma coisa". O_o Alô-ô! A ideia de preferir é já "gostar mais de". Quando você prefere alguma coisa, está implícita no verbo a ideia de que essa coisa preferida é "a mais mais", "o supra-sumo" da categoria! :)

Dizer que "prefere mais" é a mesma coisa de de dizer "o mais perfeito" ou "o mais ótimo", saca? Perfeito e ótimo já são absolutos por essência! :)

Observações da postagem
1 - Depois do novo Acordo Ortográfico, não existe mais distinção entre dia-a-dia e dia a dia (com e sem hífen). Antes, dia-a-dia era substantivo e significava rotina, cotidiano; e dia a dia era equivalente a "dia após dia". Hoje, tudo é sem hífen e a classificação quanto à classe gramatical vai depender do contexto.
2 - Acho que uma boa postagem seria sobre o porquê de algumas nomenclaturas da gramática normativa. Uma coisa por que eu briguei bastante enquanto ensinava era isso de compreender os nomes que se dão às palavras e suas funções nas frases. Nem todas têm lógica, mas ninguém questiona os postulados na Matemática, né? ;)
3 - Acho que, ao final de cada postagem, vou colocar um item desses de observação, porque sempre surgem algumas palavras ou expressões que costumam gerar confusão na cabeça das pessoas. Veremos se vai funcionar. :)

terça-feira, 3 de maio de 2011

Feliz e simplesmente

Eu tinha começado a escrever uma postagem contando uma das várias discussões que ando travando, por aí, com os homens das mais diversas idades. Mas acabei desistindo, porque todo o "leriado" acrescentaria muito pouco à ideia deste blog.

Resolvi, então, vir direto ao ponto. (Aliás, vou dar umas voltinhas, senão não sou eu!)

Acho que não compartilhei ainda como fui parar no curso de Letras. Para resumir, digo-lhes que foi graças ao meu pai (já falecido desde 2002). Ele tinha nada a ver com o curso que escolhi pra mim, mas foi peça fundamental nessa minha escolha. Ele era engenheiro e, por isso, sobrava para ele ensinar matemática às suas queridas filhas. Como santo de casa não faz milagre, o pobre sofria com o desânimo que minha irmã e eu exalávamos pelos poros. Se eu pudesse voltar no tempo, tê-lo-ia aproveitado mais. (Mentira! Se eu voltasse no tempo, continuaria tendo pouca idade e não saberia dar o valor que dou hoje ao meu pai.) Mas enfim: ele nos ensinava matemática destrinchando todo e qualquer enunciado. Para aprender que 1 metro equivale a 1.000 milímetros, foi preciso aprender que "metro" era uma unidade de medida, que "quilo" vinha do grego e significava mil, aí passei por "hecto" (=100), "deca" (=10), até chegar ao "mili".

Estudar com meu pai era uma tortura. Era a mesma coisa de aprender a tocar violão, sabe? A gente sempre quer começar tocando a música mais fácil, mesmo antes de saber afinar o violão. Meu caso. (Aliás, eu aprendi a afinar. Só faltou o resto.)

Aí sim. Só depois de o meu pai ter morrido é que eu entendi a importância de compreender cada uma daquelas palavras, cada um daqueles radicais e prefixos. Esse raciocínio me foi muito útil em Biologia, por exemplo, quando deparamos com nomes quase germânicos de plantas e animais.

E o que isso tem a ver?
O lance, galera, é que meu pai me ensinou a pensar. Ele sempre disse: "Minha filha, nunca tenha vergonha de mostrar inteligência. A gente tem vergonha da ignorância. Da inteligência, nunca!" Pois é. *Ignorância, aqui, é do verbo ignorare, ok? Que significa desconhecer, não saber.

É isto que eu tento fazer com as pessoas: tento fazê-las pensar na língua portuguesa como algo possível de ser pensado e, finalmente, compreendido. Tem coisas que não precisam de genialidade para serem sacadas e o que me irrita é a insistência de algumas pessoas em se manterem na escuridão da ignorância.

Galera do meu coração, nem tudo é assim tão lógico, mas não custa abrir um pouco o coração (e os olhos, claro) e perceber que a língua é, muitas vezes, bem lógica.

Então vamos lá (finalmente!).

Espero que pelo menos 98% das pessoas alfabetizadas tenham aprendido a grafar a palavra feliz. Às vezes, mas BEM ÀS VEZES MESMO, encontro um felis vagando triste por aí. Sendo assim, raciocinemos: se feliz é grafada com Z, felizmente também será grafada com Z. No mesmo raciocínio, a gente encontra a palavra simples: se simples é grafada com "e", simplesmente também será grafada com E.

Não fica lindo e mais fácil de decorar? Quem escreve feliz + felismente / simples + simplismente tem muito mais trabalho e ocupa mais memória nesse HD a que chamamos de cérebro.

Assim sendo, queridos meus, sejamos mais felizes e façamos os que nos leem um pouco mais felizes também. :) Pode ser? ;)

Observações:
Nesta postagem, algumas estruturas devem ter saltado aos olhos de vocês, como aquela mesóclise lá de cima (tê-lo-ia) e o "leem" sem acento circunflexo no primeiro "e". Mesóclise tem nada de especial e, se usada com correção e moderação, não fica pedante nem artificial. Quanto ao circunflexo de "leem", "deem", "creem", "voo", "enjoo", etc., eles foram embora com o Novo Acordo Ortográfico. :( E, já que falei em Acordo Ortográfico, por favor não me peçam para explicar todas as mudanças, porque o que mais tem por aí é tabela explicativa e não é pecado consultar sempre que tiver dúvida, ok? :)

domingo, 1 de maio de 2011

, mas ou mas, ?

Geral tem-me perguntado sobre a vírgula antes e depois do "mas".
Esta postagem vai ser do tipo curta e grossa, porque não se tem mesmo muito a dizer.

A dúvida das pessoas reside somente quando o "mas" é uma conjunção, porque aprenderam que, antes dele, sempre há uma vírgula. Né? Mas aí a pessoa está lendo algum artigo bem escrito por aí, de algum autor famoso e bem conceituado, e o danadinho aparece todo atacado, preso entre duas vírgulas. Oh, céus! E agora?

Meus amores, a parada é bem simples: em 99% dos casos, a vírgula antes do "mas" será obrigatória, porque uma das funções das virgulinhas é separar as orações coordenadas (ai!), especialmente as adversativas (ai! - de novo!)

(...) Há propostas para um banho de piscina, para um concurso de rumba e outras trivialidades, mas ninguém topa mesmo porque o Sol (ou melhor "Ele", como dizem com o maior nojo meus amigos Américo e Zequinha Marques da Costa) já deve, contumaz ginasta matutino, estar pendurado à barra do horizonte para a sua atlética flexão de cada dia. O ambiente se está nitidamente desgastando em álcool e semostração. (Vinicius de Moraes)

Eu não andava dormindo bem, mas com a mudança de clima passei a dormir. Andamos uma semana no meio de milionários, hóspedes de um clube gran-fino, onde só os sócios têm direito de se hospedar e... pagar. (Clarice Lispector)

Mas aí, SE EU FOSSE Clarice, teria escrito: "Eu não andava dormindo bem, mas, com a mudança de clima, passei a dormir", porque a expressão "com a mudança de clima" é uma estrutura de valor adverbial e, por ser um adjunto adverbial extenso e, ainda, por vir deslocado no meio da frase, deveria vir entre vírgulas. Aí, queridos meus, a vírgula depois do "mas" tem nada a ver com o coitado, mas é algo pedido pela expressão seguinte, que precisaria vir entre vírgulas. (O mesmo vale para a vírgula depois do "e", como neste mesmo parágrafo, em que fiz questão de propor duas vezes.)

Deu pra sacar!? ;)

Portal Globo.com

Nem todo mundo sacou, mas o portal Globo.com se equivocou ao dizer "Entenda porque Kate...". A ideia da chamada era fazer as pessoas entenderem por quais motivos/razões Kate Middleton não seria princesa mesmo depois de se casar com o Príncipe William.

Muitas pessoas acharam que o equívoco estava em "se casar", pois acreditaram que o correto seria "casar-se". Nesse caso, tanto faz. Não sou a pessoa mais indicada para falar de colocação pronominal, porque tenho um discreto pavor às ênclises, uma quedinha pelas mesóclises impróprias e paixão pelas mesóclises. A questão é que tudo isso tem nome muito do complicado e, no fim das contas, a ideia é fazer-se compreender, né mesmo? A minha intenção é de que este blog seja mesmo linguageiro e se expresse como eu costumo me expressar.

Mas, antes que eu esqueça: por que tanto faz?

É que o inifinitivo faculta a posição do pronome, mesmo havendo um atrator para ele. ;) E, também, no que diz respeito à linguagem jornalística, a ideia é sempre escrever de um jeitinho mais acessível à maioria, né? ;)

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Errou por quê?

E aí? Por que o portal da Globo.com se equivocou nessa chamada para as notícias do casamento do Príncipe William?

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Ice

Numa dessas conversas longas com minha irmã no Skype, ela soltou uma boa pérola: doidisse.

Expliquei a ela que a grafia dos substantivos terminados em "ice" era com cê. Na mesma hora, ela retrucou dizendo que ficava muito feio e que doidice com "ss" era muito mais bonitinho.

Então, galera: substantivos como doidice, criancice, babaquice, sandice, tolice, chatice, etc., são  grafados com c. Com "ss", vamos grafar os verbos no imperfeito do subjuntivo, como saísse, fizesse, comesse, trocasse, pusesse...

#ficaadica

Ainda hoje, pretendo falar sobre o temido emprego do acento grave, aquele pobrezinho a que as pessoas costumam chamar de crase. ;)

terça-feira, 12 de abril de 2011

Ainda sobre os porquês

Acabei de me lembrar de uma coisa sobre os porquês.

Quando ainda estava na graduação, cursei a disciplina de Literatura Portuguesa e, quando fomos estudar a literatura portuguesa contemporânea, é óbvio que lemos Saramago. Lembro, como se fosse hoje, ter comentado com a professora: "Beleza que ele inova ao utilizar vírgulas em vez de outros sinais de pontuação, mas por que ele não emprega os porquês corretamente?" Ela estranhou isso, mas, na hora, houve qualquer empecilho que nos impediu de procurar por alguns exemplos nas obras que tínhamos em mãos.

Enquanto escrevia ontem para postar aqui, dei aquela consultada no Dicionário Priberam, que ponho aqui ao lado, na lista de links úteis. Se procurarem pelos porquês, vão encontrar divergências com o que eu expliquei, então eu concluo que Saramago não estava equivocado e o lance é: os portugueses realmente têm empregos diferentes para os porquês, muito embora a gramática seja a mesma.

Se você TEM clareza quanto aos usos no português brasileiro, sugiro dar uma olhada neste link, em que o Dicionário Priberam esclarece a diferença entre os porquês no português europeu.

Se você NÃO TEM, acho melhor nem arriscar, senão enlouquece! ;)

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Esses tais porquês

Havia perdido as esperanças de escrever aqui de novo, mas estava devendo esta postagem a Andra Jardim e, ontem, saindo com primo e amigos, a frase "Eu nunca sei usar os porquês" veio à tona no carro.

Não tiro por mim, que sempre tive relativa facilidade com as regras e as exceções da língua portuguesa, mas confesso que o uso dos porquês não é de todo complicado. E não, isso não é discurso de professor de português que sempre acha a sua matéria fácil. Se eu fosse louca, talvez o dissesse, mas uma coisa é fato: com atenção, a gente consegue entender essas peças que a ortografia tenta nos pregar.

Minha mãe se queixou de que este blog estava uma aula chata de português, mas, se servir pra ajudar alguém, que seja! :)

Vamos lá, então!? :)

Esse porquê é junto ou separado? Com ou sem acento?

É assim que tudo começa.
Não é equivocado perguntar isso ou mesmo responder "porque junto e sem acento é pra resposta; por que separado é pra pergunta. O acento vai quando ele tá no final da frase. E o porquê junto e com acento é o substantivo."

"Tá de boa", como dizemos por aí, mas nem sempre isso será suficiente. Não entro nem no mérito de serem explicações estilo "bizu", porque sou a favor da simplicidade, mas, quando a gente entende o porquê dos porquês, é bem mais simples, né? Prometo não dar nomes como "conjunção" ou "pronome interrogativo", porque talvez precisasse de outras mil postagens para explicar conjunção, pronome e pronome interrogativo. Vamos pela simplicidade, então.

E cá estão os vilões mocinhos:

Porquê - este é o mais bonitinho e fácil de entender. A palavra "substantivo" enche a boca das pessoas na hora de explicá-lo e está certo. :) Ele é, mesmo, o substantivo. No português brasileiro, vem sempre com uma outra palavrinha determinante, como os artigos e os pronomes, por exemplo.

  • Um dos assuntos mais temidos na hora de escrever é o uso dos porquês.
  • Esse tal de porquê me dá dor de cabeça na hora de escrever.
Uma boa observação sobre o substantivo é que, sendo um substantivo, ele poderá flexionar em número (singular ou plural).

Por que - este pobre coitado é, para mim, o segundo mais simples. Ele equivale a por qual motivo, por qual razão, etc., e é por isso que ele é usado em perguntas.

  • Por que é complicado usar os porquês? 
    • Por qual motivo é complicado usar os porquês?
  • Não sei por que é complicado usar os porquês.
    • Não sei por qual motivo é complicado usar os porquês.
Por quê - este eu acho mais interessante, pois as pessoas dizem "Ele vem no final da frase". É verdade, mas gosto de explicar por quê. Ele é igual ao anterior (por que, separado e sem acento). Igualzinho! O acento, ao contrário do que muitos pensam, não é diferencial, como vieram me perguntar outro dia no MSN. Esse acento tem a ver com a prosódia, ou seja, tem a ver com a acentuação da palavra. A acentuação gráfica, neste caso, existe porque há uma tonicidade natural nesse "ê" daí. No caso do "por quê", a sua localização ao final de frases faz com que esse "quê" seja tônico. Isso é da melodia da língua, não uma mera questão (orto)gráfica. Aí, no caso, pego o gancho:

1. em português, as oxítonas terminadas em "e" são acentuadas graficamente, ou seja, na hora da escrita. Por isso o porquê, substantivo, é acentuado graficamente. (Oxítonas, para quem não lembra, são as palavras cuja sílaba tônica é a última):
    • português, porquê, pontapé, etc;
2. em português, os monossílabos tônicos terminados em "e" também são acentuados graficamente. Aí, como a melodia da língua faz com que o "que", em final de frase, ganhe mais força na hora da fala, ele vai ganhar o status de monossílabo tônico e, assim, recebe o acento circunflexo quando for representado por escrito:
    • pé, fé, Sé, ré, etc.
    • por quê, quando estiver em final de frase.
*Há autores que defendem a tonicidade também no meio da frase, quando antes de uma vírgula, por exemplo. Mas, por haver controvérsias, pode deixar pra acentuar só no final da frase, que "tá de boa".

Porque - este é o meu preferido, porque dizer que ele serve pra resposta é verdadeiro, mas, para mim, é BEM insuficiente. Quando você quiser introduzir uma resposta, ou seja, uma explicação ou uma justificativa, poooooode começar por ele. Mas depois tem um MAS que não deixará de relacioná-lo às justificativas, mas ele vai aparecer num jeitinho de pergunta, como num texto que minha querida amiga Doca (Amanda Meira) me mostrou semana passada.

  • Amanda enviou o texto a mim porque tinha dúvidas.
  • Porque tinha dúvidas, Amanda enviou o texto a mim.
MAS o bonitinho às vezes aparece assim, ó:
  • Amanda enviou o texto porque tinha dúvidas?
  • As zebras são listradas porque faltava tinta?
  • Você diz essas grosserias porque está zangado comigo?
Para mim, ele continua sem mistério, mas a interrogação ali no final das frases faz com que as pessoas pensem que ele introduz a pergunta, mas não é. Nessas perguntas, se a gente observar direito, constam algumas afirmações: Amanda enviou o texto, as zebras são listradas e você diz grosserias. Cada uma dessas afirmações tem uma justificativa, que é introduzida pelo porque. O lance é: a pessoa que afirma não está de todo certa dessas justificativas e, por isso, em vez de "afirmar afirmando", "joga o verde", como costumamos dizer, isso porque se quer checar se a informação procede.

Compliquei mais!?
Deem  feedback, para eu tentar melhorar.